30
Nov
09

Cicatriz

-Cicatriz

 

Relutamos em tocá-la,

A dor, inimiga,
Entender, dissecá-la.

Qualquer menção sua é

Vívida tortura.

 

Nele ardeu.

Nós choramos:

Na rua, juntos,

Bebendo, em livros.

 

Nela dói lembrar

Que é tão bonita.

É tanta beleza que

Nem ela se acredita.

E descrente,

Frente à lancinante dor,

A cicatriz palpita.

 

Aonde for a aflição,

Há mais que sangue,

Carne rasgada e aflita.

Há o machucado na alma pisada,

Há pus, pranto, torpor e

A triste lembrança

De que no fundo

Ainda nos habita uma criança.

11
Out
09

Notas econômicas #3

- Pé no chão

Se de algo me serviram as aulas de Macro foi para desmistificar uma idéia recorrente em economia, especialmente no mainstream, mas também em diversas outras correntes. É a noção de imparcialidade na economia- a concepção da Economia como “ciência pura”.

De fato, os economistas, no geral, tendem a colocar suas teorias como axiomas, seus modelos como universais e suas verdades como incontestáveis. Como a física, a química, a biologia e a matemática, a Economia tem sido cada vez mais tratada como uma ciência natural ou matemática, cujas concepções são imutáveis. Esquecem-se, no entanto, que consumidores não são simplesmente números, muito menos racionais- vide o mito do Homo economicus. Esquecem-se também que nunca há apenas duas variáveis em jogo, o mundo é complexo de mais para ser de todo contabilizado. E esquecem-se também- e isto é ultrajante -que cada teoria foca em um pedaço da realidade, num recorte de mundo, visto que as nossas transitoriedade e imperfeição não permitem-nos abranger todo o universo. Reduzimos o mundo a algum punhado de conceitos justamente para torná-lo inteligível.

Devemos lembrar que cada tratado, publicação, livro e debate de economia (como de qualquer outra ciência humana) têm em seu alicerce um projeto de mundo, algo de juízo de valor. Explica-se assim o porquê dos economistas nunca se entenderem e o porquê de ser uma ciência tão ricamente diferenciada. No próprio cerne de cada corrente há uma ideologia diferente.

Há matemática e, principalmente, pretensão de mais nos cursos e nas cabeças dos economistas.

Madonna!

Madonna!

14
Set
09

Notas Econômicas #2

 

Enquanto as empresas de quase todas as nações voltam a dar sinais de contratação e o aumento dos índices de desemprego começa a desacelerar, no centro do mundo, nossos vizinhos americanos permanecem relutantes em voltar a contratar mão de obra, na contramão de todos os países centrais. Assim suscitam-se questões acerca de até onde a economia global pode se recuperar sem o fim da contração da produção e procura agregada americana.

Junto a este problema, o recente Censo dos Estados Unidos revelou certos pontos interessantes. A partir da crise, houve uma queda de 3,6% da renda da típica família norte-americana- a qual foi acentuada pelo desemprego e pelo prolongamento da crise naquele país. O censo também divulgou números alarmantes: aproximadamente 13,2% da população está abaixo da linha da pobreza, sinalizando um sério problema estrutural .Essa redução da renda das famílias americanas, agora abalada pela recessão, pode tornar-se um fator de estrangulamento à demanda americana e conseqüentemente à demanda do mundo inteiro.Portanto parece que ainda por um tempo considerável a inflação não será nenhuma grande preocupação, levando o jornalista econômico Martin Wolf a proferir : “Atualmente,isso[a inflação] beira a histeria.”

Outro fator preocupante: o governo Obama tem noticiado o prosseguimento da desativação das políticas de apoio emergencial à economia. No entanto, assinala-se que serão mantidas as iniciativas para diminuir a execução de hipotecas e aumentar a disponibilidade de crédito ao consumidor, o que segundo críticos não tem sido feito sucedidamente.

Por outro lado, a diminuição dos pedidos de auxílio desemprego e aumento da importação de bens duráveis podem assinalar o início de um movimento de recuperação.Resta mesmo esperar e torcer para que nossos vizinhos abastados mostrem-se preparados para uma melhora sustentável.

10
Set
09

Notas econômicas-#1

Esse post tem a pretensão de ser o primeiro de uma nova série de posts.Repito: pretensão.Pretensão de passar algumas informações entediantes interessantes e corretas de economia.Juro que não serão muito longos.

Notas econômicas-#1

Mediante esse otimismo das bolsas- especialmente da Bovespa- e a notícia do “fim” da bancarrota generalizada iniciada há um ano, certos fatos e alguns indicadores mostram que talvez o término da crise ainda não tenha chegado. Começando pelos indicadores de desemprego por todo o mundo, teimosos em não minguarem. A recuperação por parte das grandes potências permanece controversa e variada: enquanto Alemanha, França e Itália mostram alguns sinais de melhora das atividades econômicas, Estados Unidos, Inglaterra (cuja economia permanece em sua maior queda desde 1955) e Japão continuam incertos e ainda tem seus níveis de atividade industrial em retração.

Até mesmo a China,baluarte do crescimento global,teve seu crescimento freado significativamente.Além disso,o maior credor da dívida americana,o grande comprador dos bonds do Tesouro,resolveu se livrar desses ativos-antes seguros- principalmente após o contínuo aumento do colossal défcit fiscal norte-americano e da desvalorização geral do dólar em relação a todas as moedas e,interessantemente, ao ouro-célebre equivalente geral.Desvalorização que tem em sua raiz as emissões que buscavam recursos,já parcos,para o amparo das quebradeiras financeiras e econômicas de sua outrora resplandecente economia.

Dada esta situação calamitosa resta aos norte-americanos decidirem se permitem essa desvalorização de sua moeda e o conseqüente desarranjo do sistema financeiro internacional, no qual faltará uma moeda de troca universal- a língua de todos os povos- ou se começam uma política contínua de aumento de juros valorizando o dólar,mas conseqüentemente comprometendo a recuperação global. “O dólar é a nossa moeda, mas o problema é de vocês”.

Parece que as sombrias previsões sobre o double-dip,a recessão em forma de W, não parecem tão surreais,nem mórbidas.Afinal,2012 está logo aí,diria um professor meu.

31
Ago
09

Incompleto

Com o não é que me arranjo.

Na negação eu me viro.

Na abstinência de tudo,

Eu crio o que for preciso.

 

Estando ausente, eu existo.

Só entre privações

Não me definho.

 

Apenas com nada

Eu ganho qualquer sentido.

18
Ago
09

Enfim

Seguindo a tendência dos posts de preguiçoso:

 

-Enfim

 

Quando poderemos,

Frente a frente,

Dizer o que sempre

Tirou nosso sono?

 

Quando,olhos nos olhos,

Vai dizer tudo o que

Não viu,

Mas pelo que chorou

Noite a dentro?

 

Quando numa confissão,

Nem egoísta,nem tediosa,

Vai me dizer por que fica lamuriosa

Ao ouvir aquela música?

 

Enfim quando viveremos

Em irmandade apesar de tudo?

13
Ago
09

Prece

Prece

 

Deus,obrigado pelas sextas-feiras

E pelos amigos bons e legais

Com os quais

Posso beber sossegado e

Esquecer todas as outras besteiras.

 

Ah,deus,obrigado por tantos botecos

Com garçons tão gentis

Que sem maior demora ,enfim

Trazem cervejas bem geladas

(E graças a deus também baratas) e

Uma generosa dose de gim.

 

Senhor,só não me tire a sexta-feira,

Que até o senhor tirou um dia

Para sentar e descansar a tarde inteira.

04
Ago
09

Minha gente

Com certeza,o que mais nos surpreende sobre nossos vizinhos civilizados do norte são as cidades.Pensa-se logo na cosmopolita Nova Iorque,no calor de Los Angeles,na Chicago de Al Capone,e em mais dezenas,senão centenas,de cidades também  grandes e populosas.Os Estados Unidos e sua vida urbana são a personificação da Modernidade,ou agora,Pós-Modernidade.Enfim,nomeie o boi como for conveniente.

Aqui não há nada que se pareça com o delírio industrial que é a região dos grandes lagos.Não temos uma Los Angeles,nem um Silicon Valley,nem um ensaio de Califórnia.São Paulo,nosso orgulho de conurbação e modernidade,a “locomotiva do Brasil” bradam certos regionalistas,é a única coisa que lembra remotamente a urbanização dos gringos.Numa mescla indefinida,surgem aglomerados como Chicago e Pittsburgh.Uma viagem às grandes cidades brasileiras não iria nos levar a nem dez grandes centros.

Mas também seria ridículo querer nos comparar ao gigante norte-americano.Não preciso nem citar as todas as diferenças entre os dois.A  gestação de sua indústria data ,no mínimo,de antes de sua independência.O território em meados do século XIX,a imensos custos humanos e banhos de sangue, foi totalmente dominado e ligado por milhares de quilômetros de railroads.Sua massa operária só não é mais antiga que a inglesa e ganhar dinheiro por lá parece ser um hobby.

Enquanto um gigante se levantava mais ao norte,nós ainda plantávamos  açúcar,para o prazer lusitano,e pra variar,café.Enquanto pipocavam revoltas pelos mais diversos motivos entre os pilgrims,nossos sinhôs divertiam-se com chicotes,doces e negras.O nosso Império é bem diferente do  Imperialismo deles. Nosso modernismo soa melhor como uma revolta contra excessos do que como anúncio de tempos modernos.

De forma alguma,digo que esse deve ser o nosso norte.Pela nossa brasilidade devemos encontrar,ou construir,um caminho próprio.Não nos cabe seguir as cartilhas de outros,assim como também não cabe esperarmos uma Geração Beat por aqui,por mais cool que seja.

Em meio a tantas disparidades angustiantes,e antes de começar o complexo de vira-lata,devemos sempre lembrar de algumas coisas. Claro que não temos Jack Kerouac hitch-hiking de uma cidade a outra,mas Guimarães Rosa surge com avassaladora força dos sertões.Apesar de tudo,dos nossos engenhos surge Gilberto Freyre e pobres mulatos escrevem memórias póstumas e criam nossos Otelos,tão enciumados quanto quaisquer outros.Felizmente,nosso samba deixa toda a gente contente e as voluptuosas mulatas são a prova viva de que por aqui dá-se um jeito pra tudo.

29
Jul
09

Do fundo do coração e do poço

Vou começar de baixo,do fundo mesmo.Não,não falarei das sórdidas noites de São Paulo,esse monstro pulsante.Nem das moças da Augusta que faturam uma incrível grana,fazendo inveja aos seus parceiros assalariados e incitam em suas irmãs questionamentos monetariamente morais acerca da sujeira da vida.Também não contarei histórias das periferia- sou realista no que concerne meu mundo.Muito menos, da vida de algum membro da cobiçada high society.Já basta termos Gossip Girl no prime time da Warner e todo o Jet set no Amaury Junior .

Mas contarei aqui do que há de pior.Sem sombra de dúvida,o Detran consegue ser o panteão da mediocridade e do tédio.Não culpo os que trabalham lá.O ambiente,a burocracia,a sujeira e a modorra na qual aquilo se sustenta engole a todos.Qualquer um.Definha-nos até o ponto em que se conhecem todos os regulamentos,processos,etapas e dicas pra qualquer coisa.Debaixo de todos os guichês, filas e asquerosidade dos policiais há um brejo-como diria Drummond.O Brejo das almas é lá.Disso eu não tenho dúvida.Basta meia hora naquela ante-sala do purgatório para que se sinta mais morto.

Me preocupo quando pego-me reparando nos erros de outros motoristas,comentando sobre a arte de dirigir corretamente e quando sei o que cada placa significa.

Diriam os Titãs,na voz de Paulo Miklos: Agora sinto minha tumba.

17
Jul
09

Promessa

Há tempos quis ter um blog porque,afinal,sempre me pareceu muito cult,coisa de gente inteirada e bacana.Doce ilusão.

Enfim,agora veio o twitter,e seu limites de caracteres,para atiçar o blogeiro que há em mim,e cá estou: num lugar só meu,aonde EU mando,aonde posso colocar minha fantástica criatividade,minha enorme genialidade,minha aguçada escrita e meu parco ego em mais do que o espaço de um SMS.

E torcer pra que vocês leiam e gostem.

Prometo tentar fazer disso aqui algo decente com posts legais.

Beijos a todos,
Angelo.