Com certeza,o que mais nos surpreende sobre nossos vizinhos civilizados do norte são as cidades.Pensa-se logo na cosmopolita Nova Iorque,no calor de Los Angeles,na Chicago de Al Capone,e em mais dezenas,senão centenas,de cidades também grandes e populosas.Os Estados Unidos e sua vida urbana são a personificação da Modernidade,ou agora,Pós-Modernidade.Enfim,nomeie o boi como for conveniente.
Aqui não há nada que se pareça com o delírio industrial que é a região dos grandes lagos.Não temos uma Los Angeles,nem um Silicon Valley,nem um ensaio de Califórnia.São Paulo,nosso orgulho de conurbação e modernidade,a “locomotiva do Brasil” bradam certos regionalistas,é a única coisa que lembra remotamente a urbanização dos gringos.Numa mescla indefinida,surgem aglomerados como Chicago e Pittsburgh.Uma viagem às grandes cidades brasileiras não iria nos levar a nem dez grandes centros.
Mas também seria ridículo querer nos comparar ao gigante norte-americano.Não preciso nem citar as todas as diferenças entre os dois.A gestação de sua indústria data ,no mínimo,de antes de sua independência.O território em meados do século XIX,a imensos custos humanos e banhos de sangue, foi totalmente dominado e ligado por milhares de quilômetros de railroads.Sua massa operária só não é mais antiga que a inglesa e ganhar dinheiro por lá parece ser um hobby.
Enquanto um gigante se levantava mais ao norte,nós ainda plantávamos açúcar,para o prazer lusitano,e pra variar,café.Enquanto pipocavam revoltas pelos mais diversos motivos entre os pilgrims,nossos sinhôs divertiam-se com chicotes,doces e negras.O nosso Império é bem diferente do Imperialismo deles. Nosso modernismo soa melhor como uma revolta contra excessos do que como anúncio de tempos modernos.
De forma alguma,digo que esse deve ser o nosso norte.Pela nossa brasilidade devemos encontrar,ou construir,um caminho próprio.Não nos cabe seguir as cartilhas de outros,assim como também não cabe esperarmos uma Geração Beat por aqui,por mais cool que seja.
Em meio a tantas disparidades angustiantes,e antes de começar o complexo de vira-lata,devemos sempre lembrar de algumas coisas. Claro que não temos Jack Kerouac hitch-hiking de uma cidade a outra,mas Guimarães Rosa surge com avassaladora força dos sertões.Apesar de tudo,dos nossos engenhos surge Gilberto Freyre e pobres mulatos escrevem memórias póstumas e criam nossos Otelos,tão enciumados quanto quaisquer outros.Felizmente,nosso samba deixa toda a gente contente e as voluptuosas mulatas são a prova viva de que por aqui dá-se um jeito pra tudo.